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10 de Outubro, 14:08

O fogo, ora o fogo...

 

 

Quanto mais aprendemos, mais sabemos que sabemos muito pouco. Há anos o Brasil vem sendo criticado por jogar muito carbono na atmosfera por meio das queimadas. O fogo é o principal bandido nessa história. Sempre há relatos em jornais, revistas, rádio e telejornais de que aumentou ou diminuiu o número de focos de queimadas. Isso sempre é notícia, na maioria das vezes, má notícia. São queimadas na Floresta Amazônica, no Cerrado, em Parques Ecológicos. Na cana as queimadas foram proibidas, e o setor se reinventou, produzindo cana sem uso de queimadas. As florestas, e mesmo o Cerrado, têm sido apontadas como importantes no sequestro de carbono e prevenção do aquecimento global, daí a preocupação com as queimadas.

Mas, será que o fogo é mesmo sempre ruim? Vamos olhar um pouco para o Cerrado, uma vegetação que evoluiu com queimadas mais ou menos frequentes. Os cerrados estão em solos com baixa capacidade de retenção de água, sob clima com chuvas no verão e um período bem seco. Durante o período seco, sempre foi comum a ocorrência de queimadas. O Cerrado se adaptou. As árvores típicas deste bioma são de “casca grossa”, no bom sentido. Essa casca protege os tecidos vivos do fogo, como se fosse um isolante. No caso das gramíneas, um forte desenvolvimento subterrâneo também garante uma rebrota exuberante. Outra característica destas plantas é que elas têm sistema radicular profundo, e são tolerantes ao alumínio e à baixa fertilidade do solo. Assim, o fogo as queima superficialmente e, quando rebrotam, rebrotam com toda força. Em alguns países o uso do fogo é regulamentado no manejo de pastagens.

O fato é que as árvores são esparsas, permitindo a entrada de muita luz solar em todo o sistema. Isso permite o desenvolvimento de uma tremenda biodiversidade, relativamente até maior que nas florestas fechadas. Bom, e o que o fogo tem a ver com tudo isso? Pois é. O fogo é fundamental para a preservação desta biodiversidade. Em artigo recente, publicado na revista Science Advances por um grupo de cientistas das Universidades da Carolina do Norte, de Uberlândia, de Campinas, Unesp, e Instituto Florestal, foi demonstrado que o sequestro e conservação do carbono nos cerrados tem um alto custo em biodiversidade. Isso mesmo. O fogo mantém a biodiversidade do Cerrado. Como?

É o seguinte: sem fogo, a vegetação cresce mais, se adensa, as copas das árvores sombreiam o solo, se assemelhando a uma floresta fechada. Com a sombra, muitas espécies rasteiras desaparecem, diminuindo a biodiversidade. Com o sombreamento, a diversidade de plantas diminuiu em 27% e a diversidade de formigas, um indicador de conservação ambiental, diminuiu em 35%. Assim, o m anejo inteligente, controlado, do fogo no Cerrado poderia garantir a manutenção da biodiversidade.

E como ficamos? Sequestramos carbono e perdemos biodiversidade? Ou mantemos a biodiversidade e aquecemos a atmosfera? Lembram-se de “Escolha de Sofia”, o filme em que a mãe foi forçada a escolher qual filho iria para um campo de concentração? Novamente, a melhor solução parece estar no meio termo, como sugerido pelos autores do artigo: desenvolver um manejo adequado para o fogo. Afinal, sabemos muito... Ou não?

Texto: Por Ciro Antonio Rosolem, Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu)

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